segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Ressaca





É sempre um lamento, um martírio, uma tormenta, um duelo de sensações. Desfazer um laço de amizade com sempre grande e lacônico tutor, que se propôs a ensinar com sabedoria intrínseca, é dor única.
De coração apertado, encurralado por afiados e temidos arames farpados, deixo-o em minha estante com tudo ao meu redor perdendo-se em infinito abismo, inclusive o chão, e minhas pernas vacilam não encontrando sustento. Chegou o apocalipse para meu mundo temporário, é o fim da história. A leitura que se seguia a todo vapor é findada e todas as raças de pensamento rumam o mesmo destino.
Outros semelhantes a ele descansam – talvez não em paz – e assistem a uma costumeira cena. Será que conseguirá encontrar apoio nesses outros semi-órfãos que um dia tiveram sua vez e arrebataram-me com habilidade invejável, erguendo-me amiúde ao ápice do sentimento?
Noto sua indiferença ao me ver partir, e sei que se apercebe da minha tristeza. De novo! Estou em pleno déjà vu? Já vivi este capítulo!
Cumpro pena, pois continuo preso ao enredo. Sabe Deus quando terei meu alvará de soltura. Já possuo antecedentes...
Suas personagens prosseguem mais vivas que o violeta dum recém-nascido arco-íris nesta confusa e atordoada mente. Conversam comigo como se vivessem (e não vivem?) e moram em meus mais obscuros e remotos terrenos internos.
A pele, quase sempre branca, favorece o negro de alinho impecável contido em seu corpo, uma arte que respeita orgulhosamente seus limites físicos, mas que sem nenhum pudor e com desmedida eloquência invade o afortunado que o contempla. E mostra como o contraste do preto da arte e do branco da pele fundidos em harmonia resulta numa estupenda epifania de conhecimento e variadas emoções. É divino a ponto de fazer escutar o mais inexorável ser de ouvidos moucos. Até Beethoven no apogeu da surdez escutaria o que suas palavras têm a dizer com nitidez desmesurada.
Tudo o que me sussurrou essa arte tatuada em seu corpo – que tanto me serviram de consolo – hoje descansam , ainda que fora de ordem, dentro daquela parcela da mente que chamamos de coração.
Uma série de lampejos laboram em meus pensamentos, incessantes, fazendo com que diversas (foto)lembranças transcorram quase à velocidade da luz, metamorfoseando-se, como a lagarta que gradativamente se faz borboleta, num acoplo de cenas, resultando, naturalmente, num filme nítido porém desordenado.
Árduo momento! Sinto saudades... Meu pensamento permanece anestesiado, meu corpo todo obedece respeitosamente àquilo que impõe a mente, desenterrando abruptos e descarados calafrios que fazem os pelos dos meus braços se colocar em posição de marcha. E, buscando um refúgio no sorriso de minha amada, olho para o céu, e ela, doce menina, que é toda ouvidos quando preciso telepaticamente desabafar, como se já esperasse, com uma piscadela de cumplicidade e um sorriso penetrante me lembra que o estado de espírito no qual despenco agora não é inédito e tampouco será o último. Não fosse seu brilho na noite escura teria eu minha (quase) habitual serenidade restabelecida?
Quedo numa emoção confusa, absorto, sem prestar muita atenção aos meus arredores. Minto, contemplo minuciosamente o alegre verde que não necessita de um milímetro de esforço para se sobressair a esta selva de pedra.
(Engraçado, tal como observo as maravilhas da natureza, elas também se empenham em testemunhar viagens as quais faço sem sair do lugar. Irônico...).
Muito me fez flutuar. Conheci lugares inexistentes. Viajei no meu interior mais profundo. Caminhei de modo que não sentia o chão abaixo dos meus pés. Senti. Descobri.
Mas agora acabou, e por ora sinto que esta ressaca é incurável. Em momentos assim, no clímax, minhas forças fracassam, e uma vez mais se apodera de mim a trágica ideia de que permanecerei neste estado até o fim dos tempos, num bifrontismo, perdido em meio a uma tênue camada entre a amarga realidade e a doce fantasia. Parece um purgatório!
Minha psique não sabe que rumo tomar.
E eu que tanto desfrutei dessa incrível aventura, dessa revolucionária filosofia, vejo-me desolado perante um dissabor o qual, acredito, só o Divino Tempo é capaz de curar.
Será que assim se sentiam os desafortunados leitores que se apiedaram e tomaram para si a causa do jovem Werther?
Procuro me resignar, foi como um flerte efêmero e intenso, demasiado intenso... E entendo que não tardará minha próxima viagem; e ao fim da leitura é certo que virá um brinde com uma pitada de acidez: a ressaca literária.
Mas devo aceitar este paradoxo. Bons leitores me entenderão. Afinal, se esta famigerada(?) força não surge quando concluída a leitura, é porque a viagem não foi das melhores.

GUI RODRIGUES

MAIS UMA DOSE




Hoje quis visitar Quintana
Talvez por que inicie a semana
Abrir o fecho éclair da alma e deixar fluir
O Leminsk que nunca deixei sair.
Fazer um poema desbragado, sem rumo,
Sem vinho perder o prumo, desnortear para gritar
Aos sete ventos o que vem de dentro como um vomitar de bêbedo
Sem vergonha social, desnudar-me, sem medo.
Chorar-te as dores que sempre engoli, reprimi
Dentro do fecho éclair onde deixei este meu eu, fantasma de mim mesmo,
Olhar tua íris, onde desponta esta lua cor de mel e sentir-me espelhado,
Chorar o meu choro no teu ombro de rochedo marítimo, o teu choro;
O meu choro que é chuva na manhã azulada dos sois de canto de Acauã.
Desvendar o fecho éclair lentamente como o dia desvirgina a noite
E deixar saltar este odor que inebria e embebeda os boêmios,
E embala os mendigos da madrugada e evanesce nos cigarros das prostitutas.
Quero escrever este poema marginal sem regras, sem reclamações ou luta,
Poema só, só em busca do resgate do que nunca se perdeu, busca do ar dos céus
Das águas do mar, sem maldade, sem saudade, de amor torto, desregrado,
Confinado por trás do fecho éclair.
Hoje eu quis falar para as Bruxas de Blair.
Garçom, mais uma dose!                                                                                                                            




SÉRGIO SOUZA

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

NA COR DO TEMPO



Plantei um pé de tempo no campo á beira do rio
Para colher frutos frescos de universalidade,
Mas colhi saudade, vento e solidão,
Descrença, vento e frio.
Plantei um pé de tempo no campo á beira do rio
Um campo verde e um rio misterioso,
Suave e verde azul como a cor incolor da água
De um tempo que sem tempo perdeu seu tempo.
Plantei um pé de tempo no campo á beira do rio
Colhi sonhos e desilusões, mas não perdi a esperança,
O jeito imperial de criança, meu jeito, seu jeito de ser,
De crescer como árvore imponente ao pé do barranco
Com a grandeza dos miseráveis e a miserabilidade dos nobres.
Plantei um pé de tempo no campo á beira do rio
Para esperar sob a sombra o amor que vem do verde azulado das águas sem cor
Para usar suas folhas para curar tristeza e dor,
Plantei um pé de tempo para não me perder nos caprichos de Cronos,
E ter com Apolo ou Diana na rede da eternidade esticada á sombra da vontade,
Plantei um pé de tempo que murchou com o tempo e esqueceu-se dos desvalidos
Que apodreceu seu tronco com o tempo dos dias que se foram com a brisa;
Plantei um pé de tempo para ver você chegar com a saudade da partida.
Plantei minha alma na espera do tempo na beira do rio para atingir o céu
Plantei um pé de tempo e perdi o tempo quando me plantei
Na beira do rio ao pé do campo á sombra do tempo.

SÉRGIO SOUZA

sábado, 28 de setembro de 2013

Risco e Rabisco





Deixei que a mão da poesia rabiscasse um poema,
Que contivesse o cheiro das terras molhadas do interior,
Que esquecesse os crepúsculos nostálgicos, àquela hora do nada,
Hora aberta do não ser dia e nem noite.
Mas que contivesse a esperteza da beleza safada dos neurastênicos do litoral,
Que não fosse invasivo, mas verdadeiro, que não esquecesse a certeza das ruas,
A libido dos alegres alheios aos tormentos dos que fecundam o sentimento.

Deixei, sem medo, que a mão da poesia rabiscasse um poema,
Que não falasse dos dilemas e incoerências e demência,
Mas que fosse livre das liberdades estabelecidas, das forças ocultas,
Das psicologias e dos divãs das manhas e manhãs sem maçãs,
Cujas palavras não tivesse recado, mas a maravilha da consciência,
Que não mencionasse a História ou Geografia,
Mas a ilusão poética e patética dos soltos ares
Dos versos de Moraes.

Uma poesia que não tivesse data ou dia
Nem João, nem Maria de açoite,
Nem tarde ou noite, só uma poesia...
Sem batucadas das madrugadas,
Ritmo ou cadência,
Que desprezasse a indecência da chegada ou da partida.

Encomendei á mão da poesia um poema,

Só um poema, sem eu ou você, mas todos nós,
Com todos os nós que empatam o jogo das verdades,
Com cheiro de poeira de estrada e a maresia da secas sertanejas,
Que tivesse o esquecimento da lembrança,
Um toque de adulta-criança, o adultério das confidências,
Nem popular, nem erudito, só palavras,
Ao léu, ao vento, sem saudade, sem verdade, sem mentira,
Só o passo do compasso de quem anda sem sair do lugar,
De quem corre para não chegar.

A mão da poesia escreveu um verso que fosse tão somente um laço,
E deixou, para que nunca chegou, porque nunca partiu,

Aquele abraço!

SÉRGIO SOUZA


“Fala sério, a vida é um grande clichê. A gente que tem mania de dar umas fugidinhas dessa realidade e achar que clichê é algo brega, algo esquecido. Mas no fundo, todo mundo sabe que existe um pedaço de clichê presente em cada um de nós. Para quem ainda tem dúvidas, aqui vai um bom exemplo: você nasce, cresce, vive, e depois morre. Isto é clichê. A vida é clichê.”

terça-feira, 25 de junho de 2013

SEGUNDO TOM DE AMOR..


“Moço me passa?
O que?
Um sorriso.
Como?
Não sei… apenas me passa.
(ele sorri com o canto da boca) Estou ficando sem graça.
Desculpa?
Não tem motivo para pedir desculpas.
Então, me diz um motivo.
Motivo para que?
Para você sorrir da maneira que o vi sorrir.
Felicidade?
É?
Você não é feliz?
Não sei.
Como não consegue saber?
Não sei como é…
Ser feliz?
Sim…
(silêncio)”

SÉRGIO SOUZA

               

quinta-feira, 13 de junho de 2013

ASSOVIO



Quem me pariu foi a savana,
No fundo do mundo sem cor,
Com a marca do sol e a força da dor,
Para pensar no momento,
Para ser o instante da flor,
Mistura dourada dos rios
Sentido único e frio.

Quem me criou foram as águas
Nascentes de sonhos e mágoas,
Torrente de criações e vida.

Quem me nomeou foi o destino,
No vale das vontades e desejos
Ensejos e liberdades, quem me guiou foram as feras,
Por montes, vales e fendas das eras.

Portanto quem hoje manda no meu caminho
É a certeza, filha da mãe das rochas.
Irmã da luta, prima da labuta,
E quem no sentido se perdeu,
E quem comigo não “veredeou”, não sabe o que é ter,
Conhecer o sol por norteada e ter a lua como camarada,
E as classes na forma verdadeiramente amada.

Quem me pariu foi o canto, na manhã clara da sorte
Quem me embalou foram as águas doces
No sobrado dourado que se ergue nas areias de minha mãe,
Quero correr correntezas, valando os vales em busca da dignidade,
Dos que constroem e não habitam.

Quero ser a liberdade do cativeiro, dos disfarçados negreiros.
Vou aprender a ler, para ensinar os meus camaradas.

SERGIO SOUZA



domingo, 5 de maio de 2013

ABRAÇO DE IRMÃO



Embrenha teus cabelos cor de prata
Na manhã raiada de madeixas negras
Embrenha o eco surdo por teu sorriso cor de anil
Na manhã fria de outono quente
Estende hoje a mão que ontem negaste
Chora sociedade macabra teu nefasto choro de iniquidades
Chama para dentro de si os renegados do banquete
Diz que não existem; que são visões,
Ignora teus resto nu nas esquinas
Renegue tuas meninas, diz que é ilusão.
Embrenha a luz por teus cabelos cor de prata
Na manhã raiada de madeixas negras
E ensurdeça-se com o eco que vem das ruas
Surdo e amordaçado dos esquecidos,
Daqueles que não chamaste irmão;
Que se quer passou pelos pensamentos seus
Os mendigosdas consciências
Os renegados filhos de Deus.

SÉRGIO SOUZA

domingo, 17 de março de 2013

BUSCA



Adormeço no fundo de um poema
Que ainda não consegui fazer
Por faltar-me as palavras
E convoco memória e os sentidos
Procuro tudo que se esconde na noite,
Mas o silêncio perdura...
As palavras fogem e desaparecem nas sombras.

Na cor de meu silêncio,
As palavras que não consigo escrever,
Aquelas que não digo, por não fluírem tão facilmente,
Aquelas que ficam escondidas na memória,
Mas não escondem os sentimentos,
Nem atrapalham os atos e os pensares
E o que sinto estampa-se nos lábios
Quando murmurando feliz: “Te amo”.



SÉRGIO SOUZA

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

MARGEM DIREITA



Quando os olhares se encontram, numa faísca de instante, 
Rompe a manhã à madrugada sonolenta e instigante 
Assim como corre o céu o astro luz, que incendeia a candeia do encontro, 
Como nasce nas cabeceiras os rios de águas frias, puras em busca de outro, 
Renasce da madrugada poética uma manhã da natureza, com aval da beleza, 
Agita o oceano de azul claro de braços fortes e aberto na espera do abraço 
Que em cada passo é um compasso batido no coração da terra imperiosa, 
Conscienciosa, única e verdadeira como pedra rolada no mesmo lugar, 
Amarela como a luz da fertilidade, azul como água cristalizada 
São corredeiras de avenidas, diques de bares, sonhos reais, realidade sonhada, 
São continentes que se unem, são iguais que se diferenciam, é Narciso numa só miragem 
É camaradagem de si mesmo, como sol e lua, como rio e mar, 
É o mar, ah mar, é ser água que banha risos e olhares e dizeres, 
Afazeres do nada, perambulando na manhã raiada dos olhares, ensejo; 
Desejo surdo de união de mãos como selo de permanência, consciência. 
Poesia única que corre para o rio-mar, imenso como o sentimento calado, 
Circundando pedras de Américas e Áfricas numa feira de verdes arbustos 
Cinamomos caídos, folhas ao vento que se eternizam numa tela 
Como vontades e odores secretos que se confessam em surros de águas que correm 
Até se encontrarem num fim ou meio de tarde quando se apagam os olhares faiscados 
Ofuscados pela escuridão da noite-madrugada e tudo virar palavra 
Na lavra de um poeta passante, que imagina o abraço-pororoca do rio no mar 
E sonhando no enlevo do inaudível, em êxtase do desengano 
Idealiza no som do encontro estrondoso – TE AMO!


SÉRGIO SOUZA

sábado, 26 de janeiro de 2013

MANHÃ DE DOMINGO


Mais uma vez ouvindo o som da terra
A vontade que uma vez mais se encerra
Águas agitadas como laguna em guesa
Rios que cortam cordilheiras, represa em represa.
Uma vontade necessidade de quem olha e não vê,
De tem a metade pela metade
O inteiro dividido, como poema sem rima
Sentimento lúdico, mateira prima, poesia
Uma alegria de pele que se cobre
Com o manto do odor lógico do pensamento.
Mais uma vez o caminho é rota de regresso
Um abraço que se prende no laço perverso
União e separação, confissão e certeza.
Acordar com beleza do sonho
De quem veio e nunca chegou,
Mas também, nunca partiu.
Vem com a manhã no trem das nuvens
E fica na ilusão sofrida de viver a poesia das auroras.
Mais uma vez é proibido o infinitivo do verbo sentir.
Melancólico conjugar o poder, vivenciar o indicativo do ter.
Mas sorria, a sanha de poeta, e ser pela metade a sua vida completa
Sinta, sorria que a hora é esta,
Poema, poesia, poeta;
Ergamos esta festa de manhã de domingo,
Porque hoje é sábado.



SÉRGIO SOUZA

domingo, 13 de janeiro de 2013

ENCONTRO DAS ÁGUAS




Ô belê! ô belê! Din Din!
É o povo do Benin!
O Rio corre para o Mar, Odoiá! Odoiá!
O Mar que quebra na praia é o sonho de Sobá!
A saudade da Oxum que a faz chorar.
O Rio, ô berê, é Rio, ô Bará!
É do povo Yorubá, Ogunhê!
É o povo Nagô, Atotô!
É de Mina, É Guiné, Odè!
É raio na pedreira, no Rio e no Mar, Eparrei!
Oxum é rio, doce, amor, e luz, Logun!
Sou eu, é você, Rio e Mar!
No tempo que o tempo dá, Oxalá!
É terra, é chão, baobá, Yorubá!
O Rio que corre é Dandalunda, é lágrima de ouro,
Fertiliza, renasce e agoniza, esperando o abraço do Mar.
“Saudades da Oxum é que me faz chorar!” Odoiá!
Na luz do Sol, na luz da Lua, dança Deusa Menina.
É agogô, é batuque, é capoeira é dança é orixá!
É a gente, é a roda no encontro de Oxum- Odoiá!


SÉRGIO SOUZA


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

TRILHAS


Uma chuva, um sorriso, uma avenida, 
Um afeto, as mãos, união da vida,
Um natal, uma foto, uma Paulista,
Os olhares, o espanto, olhar, a vista.

Um café, uma esquina, volta e ida,
A troca, o livro, escolhas, a medida,
A gula, a vontade, o desejo, uma conquista,
O universo, um instante, um beijo, asfalto, pista.

O inicio do trajeto, mistério e corações,
A selva armada é cenário de sentimentos livres,
A eternidade é logo ali nos palco das emoções

A realidade dupla que o mundo esconde no timbre
Uma poesia no desejo oculto é caminho das ilusões
Uma música, um querer mais, uma saudade, corações.

SÉRGIO SOUZA

domingo, 16 de dezembro de 2012

AZUL


Eu te “saco” você me “saca”
Entendimento em tom de azul.
Tem um peito que descobriu que ama demais
Como os ventos que quem vem do sul
Cobrindo tudo em tom de azul
Num misto de verdade e saudade incontrolável
Que as nuvens cobrem de tom azul
Juntando almas únicas em únicas histórias,
Em tom de azul misturando o céu com o mar
Tua mão é a estrada em tom azul que o olhar escolheu
O destino que encerra o sorriso livre de que viveu,
Ganhando o afago e beijo azul como uma letra de Tom
Unido um eu de luz alva e pura ao colorido do tom
Inicio, meio e fim da poesia-criança, um tanto certeza,
Sentimento que trás sentir medo, mas é beleza,
É desejo querendo explodir, invadindo canais e arietes.
Reservados mistérios das naturezas em tom de azul.
Querer um olhar não é pecado é verdade,
Querer um beijo tom de azul é verdade e não pecado
Querer sentir um afago é um olhar com o tato com pecado e verdade
Querer fazer de dois um é um pecado-perdão, uma verdade em tom de azul.

SÉRGIO SOUZA

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

FLORESTA DE CORES


A luz é fonte única da beleza das cores
A refração madrasta múltipla da partição
Elemento divisor, reflexo das dores e distâncias.
Gira o caleidoscópio da vida em torno das ânsias
Universais de cores tantas e interesses diversos,
Inusitados verdes onde estariam amarelos,
Lascivos tons brancos onde a vontade é ser vermelho
União desconexa do girar constante das vontades todas
Zombam das necessidades pessoais e das ansiedades sociais.
Estagnam aqueles que imaginam a vida em tons escuros
Vivem aqueles que buscam no coração as cores ideais,
Iludem-se os mais céticos perdidos na escuridão dos ais.
Dádiva divina, a luz dos olhos coloridos da criação, em tom puro;
Amor e sonhos pintados à aquarela simples na tela dos sentimentos,
Matizes livres dos pensamentos azuis como o mar refletindo o céu
Ou multicor como primavera em flor, cobrindo a encosta como véu.
Ri a alegria por ser anil como o manto que nos cobre,
Gargalha o oceano por ter o tom celeste esverdeado da água nobre.
Sendo paz a luz é guerra, sendo dor é também amor.

SERGIO SOUZA

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

ESTRELA DE PAPEL



Por mais que falte a inspiração
Não falta o coração-sentimento
Um instante ilusão, outro inquietação
Vem do mar a vontade,

Vem da rua a coragem,
Um momento de olhar estelar
Uma mão que se sustenta
A única luz que esquenta,
São bocas sussurrantes.

Por mais que falte a inspiração
O Sol abraça o dia
A Lua invade o mar
Na onda que se anuncia
Navegantes da ousadia
Transeuntes de uma só rua
A estrela de papel domina o céu
Num desejo e vontade sua
Misto de ensejo e delírio seu.

SÉRGIO SOUZA

TEMPO SAUDADE



Saudade que faz parar o tempo,
Saudade moura de espadas e capas
Saudade do mar, o mar das águas claras,
Saudade das terras e das gentes de lá,

Saudade de você que sonha meus sonhos
Que ri os meus risos e diz minhas falas,
Saudade das palavras de adaga
Que corta e fere com carinho
Neste desalinho que é a luta do afeto
Saudade desmedida do tempo
Tempo de saudade desmedida
Olhar cutelo, sorriso espada,
Sentimento vertido como lágrima
Saudade cristalizada na cora do sorriso.
Saudade, meu tesouro no fim do arco íris
Montada no meu pote de ouro.

SÉRGIO SOUZA

terça-feira, 20 de novembro de 2012

AMORIZADE




Um dia, um instante, olhares, corações,
Vontades de praias, e bosques, ilusões,
Na tarde noite, no dia manhã,
Caminhos e Luas, Sois e Ruas
Sem palavras, sem escritas,
Mãos unidas bem ditas
Interiores a credita, nuvens e chuvas.

Um é Sol outro a Lua,
Outro Caminho, um Rua,
Um sorriso, outro lágrima,
Outro Paz, um Paixão,
Um verso, outro Poesia,
Outro Noite, Um Dia,

Assim segue a sinfonia da vida
Criação divina que nos convida,
Instiga a criação e a conquista,
Fazendo marionetes ilustres do prazer de respirar.


Quando tudo vira um só contexto
As vidas viram tema e bandeiras e pessoas,
Um é linha, outro caneta,
Outro pretexto, um Papel,
Um ponto e vírgula, outro Texto.

SÉRGIO SOUZA


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

BENVINDO


Um canto para dois corações,
Um contracanto para duas vozes
Dois instantes um só momento
Vontades unidas, mãos espalmadas,

Verdades atormentadas
Na madrugada poética.
Poesias nascidas do interior de cada um
Fazendo palavras um sentir sem fim
Das imagens criadas nos confins do eu
Um canto sem contracanto
Mas de olhares distantes,
E tão perto como a Lua-senhora
Que mesmo sem perceber a hora
Ilumina as praias e ruas vazias de pessoas
Mas cheias de histórias.

A noite se foi eu fiquei
Esperando o raiar do dia
Para transformar virtualidade
Em nossa realidade.

SÉRGIO SOUZA


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

EU MESMO






De tanto andar por entre curvas e lagos
Fixei-me nas retas e no sentido único do viver
Que por muito pouco conhecer transformei lágrimas em riso
Fantasia em siso, vontade em necessidade, ponto em travessão,
Diálogo em confusão, montanhas em planícies.
Perto da sandice espelho na água que me constitui
Para não perder o norte do desejo, que neste ensejo,
É a lua, parte no céu, parte no mar,
E se a inda esbravejo espanta-me a súbita vontade de incesto
Por mais que ostente a dura empunhadura á proa no calor da luta
Que por fim é disputa, pois em terra de poeta qualquer verso é chico
Em qualquer estrofe eu fico como marujo a te buscar por entre estrela
Caminho reto de curvas, já toda curva é uma reta e é em ti matemática pregressa,
Que estão minhas aritméticas calculando a distância de que nunca chegou, pois não partiu.
E na noite que sismo sozinho te elevo em minha pátria, minha fátria
Que come montanhas, bebe rios e urina mar para dizer que dessa intimidade sou seu solo, gentil.

SERGIO SOUZA

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

AMBIGUIDADES



Só sei das ambiguidades e incertezas
Meu sermão chama o cordeiro de verdugo
E o lobo de irmão.
Com uma mão se toma
Com a outra não se ajuda ninguém,
Muito menos lava o rosto.
Possuir é o que faz sentido,
Não compreendo o peixe multiplicado
Ou o pão dividido.
Brinco de réu, me disfarçando de juiz.
Aceito meu céu, mas falo de meu inferno,
O venha a nós me é mais fraterno
Do vosso reino não falo,
Pois por si só se desdiz.
Sou ateu nos dias bons
E agnóstico nos ruins,
Pois todo meio justifica os fins.
Não espero, senão não alcanço,
Tenho pressa, pois vagareza não leva ao longe.
Não fico na cama por ser lugar quente,
É por preguiça mesmo
E nem choro, pois de nada adianta a derrama.
Semeio vento para colher bonança,
Pois é da tempestade que surge a temperança.
Não viro a outra face, distribuo tapas.
Quem cedo madruga, só fica mais tempo acordado.
Meu sermão é palavras dúbias
Chamo o cordeiro de vilão
E o lobo de irmão.


®Sergio Souza

VERONA


Original é o poeta
Que nasce de si mesmo,
Que se lucupleta.

Original é a vontade de viver o encontro do desencontro
O sol visitando a lua, a noite penetrando o dia.
Original é o poeta que se origina no despudor dos amantes
Que é gato de sete risos, paredes e frisos.

Original é o risco dos tempos que incomodam os mandantes.
Original é o poeta de Verona, meio Capuleto, meio Montéquio
Que nem por obséquio desiste do seu encontro original.

Que chorem as camadas sociais, mercenárias dos escritórios,
Os senhores das regras, que surgiram para serem quebradas.
Original, é você que dedica encontros onde todos falam de despedidas,
Original é o poeta que sente na distância a proximidade das identidades
O dar as mãos, correr campinas asfálticas e bosques urbanos, Verona!

E o cheiro que exala no ar originalidade verdadeira de quem se fez perfume,
No seu ar, para perpetrar o longe que se pode alcançar, Verona!

Original é o poeta que devora em jejum, o que é sua parte;
Se desmancha em arte, é todo e não é um
Que é entrega clara de toda parte que a sorte traz
Ao ver o dia afagar a noite se desfaz,
Como o mar, em espuma, ao preparar a cama da tarde, Verona!

Paraíso dos condenados, juízo das palavras, misto de choro e riso.
Original é o poeta que nasce em si mesmo
Num encontro diferente do horizonte vermelho abraçando o dia!

SÉRGIO SOUZA



POR MEU VERSO


O poeta é o sonho,
E o sonho é uma poesia
A cama é uma quadratura
E o amor é uma literatura
Que fala da noite e do dia
Desconectado de mim
Sem princípio ou fim
Você  não real, nem mentira
É uma flor de macambira
Um universo sem astro
Perdido no anverso do meu traço
E por desvarario ou cansaço
Me largo no seu rio, braço de sofá
Com pensamento perdido no sem atitude
Embaraço de novelo sem nó
Que se enevoou  no dó da nota
Sem notar o dó da dor
Então no lento de seu passo
Tropeço e desvaneço
Na evenecência  do descompasso
Desejo que nunca se quis ou viu
Nem nos versos lusos ou de Gil
Logo com medo da chegada de quem não partiu
Me abro num sorriso
No querer sempre do teu abraço.

SÉRGIO SOUZA

DOLOSA DECLARAÇÃO



Não chores por mim...
Pois não mereço tuas lágrimas...
Não se preocupe comigo...
Pois há melhores coisas a se preocupar
Não fique angustiada... Pois angústia por nada, é estupidez
Não fique triste... Porque tristeza? Por alguém que só lhe fez chorar.

Diante de versos dolorosos eu renuncio ao seu amor!
Não quero ver-te sofrer, não quero que uma ilusão faça-te perder novamente o rumo
Pois você é mais importante pra mim do que me julgo ser
E é pela proporção de nosso amor que o renuncio!

Talvez um dia você me perdoe, entenda o que fiz, e porque o fiz,
Não quero que sintas esse desprazer de me conhecer.
Desejo também, que nossos bons momentos juntos,
fiquem eternamente guardados, às chaves, no coração
E que perceba que o quê sentimos um pelo outro foi eterno, enquanto durou.

B.Bordoni

CONFLITO



Falar das vontades e diversidades
É sonhar com as necessidades
E acordar com a realidade.
Viajar nas asas da credulidade,
Mergulhar no oceano das adversidades,
E sair molhado pelas infinidades de “eus” que nos assola
E nessa pluralidade se perder nos desajustes do ser.

Diante do espelho você é eu
E se, por conceito, já somos nós
A poesia se perde nessa iniquidade,
Se nos conhecemos, de nós pouco sabemos,
E da imagem refletida somos dicotomia
Você é positivo, eu sou seu negativo,
Se na oposição existe unidade
Na coesão existe afastamento.
Se no peito nasce a flor da aproximação
Existe a mente o murchar da razão.
Um instante é sorriso, o outro é pecado,
Se uma mão se junta, a outra se afasta,
E tudo se arrasta para a infinitude do espanto,
Mas ambas se juntam para poetizar, para unir forças, ou cruzar espadas,
Se os olhos choram, as mãos secam, se as mãos se afastam, os olhos reclamam.
Façamos todos juntos, artistas que somos das incoerências,
As anuências de nós mesmos, nus que somos dos nossos medos,
Verdadeiros e reais, antes que a idade dos fazeres passe,
Desfazendo a unidade que a vida-poesia nos deu.

SERGIO SOUZA

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O POEMA QUE NÃO FIZ


Teria uma luz para imaginação e um interruptor para a esperança 
O poema que não fiz contaria a verdade das mentiras que ainda persistem 
Um lugar perdido dentro da certeza cheio de incertezas para serem resolvidas 
O poema que não fiz não teria ponto ou vírgulas para não se reter o fôlego. 
Teria um espaço único nas rimas para guardar os achados e perdidos de nós 
Aquelas filipetas de livros que lemos e não guardamos nas estantes da vida 
O poema que não fiz seria um libelo do amor que não vivi e dos leitos que não deitei 
Teria um eterno mirar nos lábios e beijar os olhos dos que amor sinceros que não achei 
Um juntar de mãos que afastaram os corpos que abracei. 
O poema que não fiz é uma lembrança viva da tênue palavra que não foi dita 
O poema que não fiz teria uma leitura uníssona frisando o sem palavras das multidões 
Um cálice de vinho vazio para bebermos juntos a bebedeira que não tomamos 
Uma janela aberta representando o fechamento em que vivi e a abertura que sempre buscou 
O poema que não fiz viaja hoje na atmosfera dos sonhos e nos papeis das escrivanias 
O poema teria um vocabulário errado para falar certo ao coração 
Não seria canção, nem vilancete, nem ode, seria simplesmente o poema que não fiz. 
Sem riscos de lápis ou traços de giz, o poema que não fiz 
"Manuearia" com a estrela da manhã, "viniciaria"nas tardes de Itapuã, 
Indo "drummoniar" tranquilo a inquietude das noites . 


SÉRGIO SOUZA

terça-feira, 2 de outubro de 2012

METALINGUAGEM



Falar, escrever a palavra e o sentindo, do que se faz ou se sente, não é fácil sentir-se com o interior, não é fácil fazer-se sentir com a verdade da palavra dita ou sugerida pelo interior, por aquilo que vem de dentro e que faz o ser se virar em si mesmo, difícil não é só viver é também fazer valer o real para o qual se destina e para quem se destina. O saber com consciência não é para quem sabe fazer é para quem sabe sentir com o interior, olhar no olho da verdade poética e se dizer poesia, não aquele que o vento leva, mas aquela que o sonho embala, que a mão toca, mesmo que seja na imaginação do seu interior, não a palavra dita por ser dita, mas a bem dita da alma, aquela que o vento leva como indagação e trás como resposta, aquela que faz vibrar o ser pelo próprio ser em busca do caminho certo, da ilusão contida no vaso quente da imaginação dos corpos nas quadraturas da vida.
Falar dos interiores é caminhar por canais escuros e canalículas estreitas das mais escondidas veias em busca de um eu referencial, muito antes do eu emotivo, é se fazer verso muito antes de se sentir poesia, se fazer solução bem antes de se sentir tese, amar um eu seu como quem ama a si incondicionalmente, amar uma virtude interior como a capacidade de sentir e sofrer calado tendo o objeto ao lado ou em posse de outrem, derramar a lágrima seca dos choram platonicamente seu próprio interior, falar consigo mesmo é dizer mentiras sabendo verdades, é chorar sorrindo, é partir sem nunca ter chegado.
A imaginação é a mãe da ilusão e madrasta da verdade é ela que faz com que se sinta preso ao pelourinho da insegurança, perdido da esperança, que é sempre um lago lindo e azul, porém distante, é muito mais do que uma reticência ao final de um texto.
O papel, cúmplice das palavras, não reage as suas investidas e mesmo sabendo vencido, não deixa de ser o canal ilustre dentro dessas palavras dentro das palavras, do contexto dentro do texto, das mãos unidas no vazio, se o texto tem um endereço, se a carta tem um destinatário este é o interior, a análise sintética do contras senso do ser. Quando os olhares se cruzam falam destes interiores, mergulham no rio raso das temeridades e das falas dos observadores e então emerge das sombras o mostro do lago medo das palavras que o vento trás, pois o mesmo que leva as palavras trás a resposta, alguém, um dia disse á beira do gramado das campinas do seu interior que Deus fala na voz do vento, não há uma confirmação concreta disso, como não há uma confirmação concreta do que realmente se sente, a ciência é precária para tal, o sentimento entendido demais para tal preocupação, verdade é tudo aquilo que pode parecer e se, tudo se perde no contexto das aparências saber-se da verdade de cada um é mais complicado que vencer a geleira dos interiores dos seres, tão complicado como querer explicar o imponderável, fazer poesia sem palavras, amar um ser indiferente, dizer clarezas na escuridão da ignorância,  mas por fim se tudo voltado para dentro é complicado, melhor é sentir com os olhos os sabores dos beijos vivenciados com as mãos ou poeticamente desfilar rimas nos penhascos da desilusão ou se perde na tez imperial, morena e serena de que nunca surgiu na banheira ou escuridão do quarto dos minutos seus.

SÉRGIO SOUZA

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

NEBLINAS



Com o verso na algibeira e a estrada para caminhar,
Um sonho no peito e mãos para desbravar
Bifurcações temerosas e trilhas insidiosas,
Poeta das tristezas – alegres e das verdades – mentirosas.

Soneto dos desvalidos e rima dos necessitados
Estrofe mal-acabada de sentimentos únicos,
Grito rimado das batalhas das avenidas dos esquecidos
Amado poema dos desvalidos.

Quando raia o dia dos que nunca dormem
Surge a noite dos que nunca acordaram
Quando se abrem as portas dos sempre fogem

Fecham-se as janelas dos que nunca chegam
Se o desatino é a valia dos encanados
O flagelo é a herança dos desenganados.


SÉRGIO SOUZA

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

TRIBUTO ÁS PALAVRAS





É FÁCIL TROCAR PALAVRAS, POESIA.
DIFÍCIL É INTERPRETAR O SILÊNCIO NA CALADA DO DIA.
PRINCIPALMENTE QUANDO O SOL DA NOSTALGIA
SURGE E RESSURGE NO HORIZONTE CASTO DA MELODIA
SINFÔNICA DO CANTO DO SABIÁ SEM PALMEIRAS, MAS COM IRONIA. 

É FÁCIL TROCAR ELEMENTOS POR MOMENTOS EM CONEXÃO,
DIFÍCIL É SOBREVIVER AOS INSTINTOS DO CORAÇÃO 
QUE BATE E SE DEBATE NA QUADRATURA DO PEITO EM BRASA
COMO UMA CRIATURA QUE SE PERDEU NA ESTREITA IMENSIDÃO DE SI MESMO, 

FÁCIL É TROCAR O VERSO, SE FAZER ILUSÃO E BATER ASAS,
DIFÍCIL É ENTENDER UMA REALIDADE PERDIDA NO SILÊNCIO QUE SE FRATURA
EM PEDACINHOS DESCONEXOS DE UM QUEBRA-CABEÇAS CUJO O NOME É VIDA,
MAS VALE O BANQUETE A QUE SE CONVIDA, POIS QUE SABE QUE É, DÁ FÉ
QUEM NA ILUSÃO ESQUECIDO NÃO SE PREOCUPA PELO QUE É OU SEJA
NO TOM A QUE SE ENSEJA E VAI POR CAMINHOS E DESALINHOS TANTOS.

VERDADE QUE A VIDA TEM UM MISTÉRIO QUE VEM NÃO SEI DE ONDE E SE VÊ,
QUE COMEÇA NÃO SEI ONDE E TERMINA NÃO SEI PORQUÊ.



SÉRGIO SOUZA

segunda-feira, 26 de março de 2012

RELEITURA




Tudo que fica passa, mas nem tudo que passa fica
Pois nem tudo que violenta teu rosto te desperta
Nem todos os seus discos riscados acordam
Os que dormem o sono da indiferença
Portanto nada ficou no lugar a não ser suas mentiras.
Mesmo com a alma invadida e falando  sua língua
A leitura é a  mesma de todos os tempos
Nos segredos publicados na desatenção
E por mais que as mentiras sejam desmentidas
No resto da minha falsa alegria
Nem você ou você vem, ou olha para mim.
E por fim, com o frio estou, com saudade de mim
E o pior é saber que como você não sei se volto
Neste banho de chuva debaixo de pé uva
E mesmo só, de mim mesmo, sinto o palpite
Como passarinho em busca de alpiste
E para meu governo desgoverno o ritmo
De tudo a minha volta sem rumo sem destreza
Pois despreza o já conquistado o conquistador
De muitos rumos e caravelas.

SÉRGIO SOUZA


terça-feira, 20 de março de 2012

POEMA MARGINAL



Não vim, nem vou ao Catumbi
Jamais montei cavalo,
A não ser dos versos que falo
Nem quis, em tempo algum, a tísica frenética
Que consome a lira da velha poética.

Não levo flores a namorados de jardim
Nem flores de rapazes em cantos de jasmim
Perco-me em cachoeiras de metáforas
Entrego-me a sonhos perdidos de anáforas.

Se um dia girou o "qalb", não foi com sentido
Esteve perdido na realidade de virgens,
Em esquinas de atores vãos e ruas de meretrizes.

Se as lonjuras são minhas conjecturas
As regras me são ataduras.
Se o poema é regra, sou marginal
Nunca fiz o que quis, nem quis o que sempre fiz.

Estive a meio caminho da glória
Com um pé sempre calcado no fracasso
A cabeça lúcida da dúvida.

Quis a poética-estética de Itabira
Tropecei em cabaceiras e terminei em Irajá.
Nem sei se versar ainda te atrai,
Se meu verso trai a mim ou a você
Ou se engana você e trai a minha vontade.

Só sei que gira o pensamento e o coração
Este no peito aquele no cerebral
Num verso poeticamente marginal,
No desvio como sempre vivi.

Na encosta, na sombra negra em que condenado.
Então toma-me a boca-poesia
Neste desalinho sem fim
Com a vontade do riso e a necessidade do choro.

De entrega e fuga, de encontro e medo
Deságua afinal na baia a gota final
Deste peito e deste poema marginal.

SÉRGIO SOUZA




terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Donec mei



        Inspiração é mesmo uma coisa engraçada, faz dias caminho com os pés n´água, descalço na areia em busca dela, imagem distinta, dela..., figura única, aquela que vem de dentro, mas só a linha do horizonte me diz algo, fala comigo, reclama das ondas do mar, desse mesmo mar que me invade e recua e desaparece na linha do horizonte, sem poesia, sem prosa, ondas que refluxam sem a consistência que a vida pede.
            Caminho em primeira pessoa numa busca de algo exterior que complete este interior repleto e vazio numa incoerência inexplicável de sabedoria e inexatidão, uma busca do eu, que definitivamente dói, uma busca em você que está distante; por companhia a fumaça do cigarro incoerente, mas que nunca me falta ou me abandona.
               E assim vagueia o pensamento vazio pelas faltas sociais, pensando naqueles que nem a oportunidade tem de se amofinarem, lá vou eu “pseudozumbi” chutando vagas como quem chuta lata, assim me fiz e assim me optei, assim consegui chegar onde cheguei, assim choro uma ausência cada vez mais ausente por conta do memento, mas em que isso ajuda os abandonados filhos de África? Supostamente, desconfio, que em nada, mas foi do nada que surgiu a criação, foi do nada que se criou o inusitado, foi do nada que surgiu em mim a poesia, hoje tão fugidia, arredia mesmo do meu coração, que embora ferva de ilusões, imaginações, o cérebro coerente desengana, ah Inspiração, em que pedra desta praia se meteste a brincar de esconder com esta alma chorosa e solitária.
            Ah! A solidão! Nunca te chamei para viajar comigo ou mergulhar nas relvas dos jardins botânicos da vida, mas insistes em ser a companheira do meu destino, poderia mergulhar desnudo nestas águas que nem o pudor passaria por aqui para me repreender, mas tu, solidão, com certeza estaria escondida num grão desta areia para sorrir da minha insanidade.
              O quê foi feito de mim?
              Certamente nem o universo conspirador diria ou saberia, mas ela sabe e do alto de sua majestade diria algo para me impressionar ou definhar diante de todo este nada que me cerca, de nada tem adiantado pedir á inspiração que me resgate deste cativeiro em que me meti, meu prisioneiro escapou e eu fiquei detento de mim mesmo, pedindo migalhas pelo resgate deste interior esquecido.
            Ah Leitor, com certeza está compadecido de mim, mas quando virar a página ou passar o cursor mudando o tempo do assunto, não mais de mim se lembrará, porque a vida é assim, vem e vai com a sensação de que nunca saiu do lugar, assim sou eu, bravo valente guerreiro de outras jornadas, insinuante mestre de outras lições, com a nítida névoa pairante de que nada aconteceu, governos governam como sempre, cidadãos seguem como antes, os soldados marcham para a guerra que não inventaram, o Sol nasce todos os dias antes da Lua..., ou seria depois? Bem, aí depende de um referencial; como se nada tivesse saído dos seus lugares ou milhões de tempo contados em anos não tivessem passado. Na realidade tenho a impressão de que não passaram mesmo, tudo me parece como naquela manhã misteriosa depois das trevas da criação ou do “Big Bang”, que para cada um de nós, pode se resumir no dia do nascimento, de que do mar onde estava abriu-se a escotilha e me lançaram em terra firme sem saber respirar ou caminhar sem nadadeiras, tudo me parece muito igual, a mesma ânsia de conhecer, a mesma poesia por ser escrita, a mesma água vazante, tal como o mar de hoje, o mesmo tempo por percorrer, só me falta o afago das mãos, desinteressadas, amigas, verdadeiras, porque na vazante de hoje elas não mais existem e custam caro para qualquer carinho ou afeto, sempre apressadas dentro dos seus aluguéis, sejam eles quais forem.
             Momento de mim mesmo. Gostaria que não viesse me excitar, trazendo este prazer insosso, sem verdade e consistência, nem calor por persistência, nem gemido por consolação, numa conjugação solitária que nada lembra momentos de outrora, nem escudos ou espadas de batalhas épicas dos piratas destes mares.
            Mesmo diante desta Lua que corteja o mar, mesmo diante deste mar que conjuga com o horizonte, mesmo diante deste horizonte que espera o Sol, a esperança nomeada sem nome gravado me invade e infesta à lama em festa de espera, assim como poesia de pé quebrado, assim como quem sempre ousou e te confessa tentado na ousadia aventureira do novo-velho, não renega o que sempre sonhou e pensou, inspira-se, como fênix, com a certeza do beijo do mar na areia, da lama no espírito e pouco me importa a ordem, tenho a certeza de que meu pé pisou com fé, reverenciando sempre quem pode chegar onde pouca gente chegou.

SÉRGIO SOUZA